Friday, June 08, 2007

Relaxar, desatar as tensões


Namkhai Norbu Rinpoche

A consciência é conhecimento de si mesmo, por isto, para ajudar os outros, deve-se antes de tudo estar-se pronto a fazê-lo. Há um famoso ditado tibetano que diz: “Querer ajudar, curando-o, a alguém com a cabeça quebrada, ainda que tenha ele mesmo o pescoço torto”. Se alguém tem problemas, um ferimento na cabeça, por exemplo, é claro que necessita de ajuda, mas certamente não de alguém que não esteja bem, que tenha como em nosso provérbio o pescoço torto, e que por isso não esteja podendo ajudar os outros. Deverá, portanto, antes de tudo observar um pouquinho a si mesmo e, conhecendo a própria condição, poder ajudar os outros.

Eu sempre dou o exemplo dos números: quando se fala em números, logo se pensa em números grandes e não na unidade; assim, até quando se fala em sociedade, em luta, em mudanças sociais, muitos falam e a idéia que os anima parece um pouco com a promessa do Bodhisattva de ajudar os outros. Claro que falar em mudanças sociais é uma coisa útil, é uma coisa justa, mas é preciso compreender o que é a sociedade de que se fala tanto. A sociedade é formada por nós mesmos, sociedade não quer dizer outra coisa do que um grupo de pessoas; mas se é um grupo de pessoas, de onde se pode começar senão por nós mesmos? Nós somos como o número um, sem ele não tem nem dois, nem dez, nem mil. Não conhecendo-nos a nós mesmos, o número um, não sabendo qual é a nossa própria condição, capacidade, etc., será bem difícil operar em benefício alheio.

Então, é muito importante cotidianamente tentar compreender como é a nossa verdadeira condição. Praticar, seguir o ensinamento significa essencialmente trabalhar sobre este plano, ajudando um pouquinho a si mesmo. Praticar não significa necessariamente fazer uma meditação específica sentado; significa, sobretudo, colaborar consigo mesmo, sabendo como relaxar, como se dar espaço.

O que quer dizer para um indivíduo dar-se espaço? Quer dizer não se obrigar a fazer alguma coisa. Acontece freqüentemente que muitos, no primeiro encontro com um ensinamento, utilizam-no de modo constritivo, condicionando pesadamente a própria existência e encontrando muitas justificativas para fazê-lo; de fato, sempre se diz que se deve lutar contra a própria preguiça, mas, dando a ela muita importância, criamos mais um medo. No ensinamento Dzogchen não há luta; se alguém fala de luta referindo-se ao ensinamento, diz o falso: lutar é assumir uma posição dualista, de qualquer modo ilusória, e lutar, separar um ou outro dos dois pólos, o positivo ou o negativo, dá no mesmo.

No ensinamento Dzogchen, o princípio é não lutar, mas, ao invés, compreender qual é a própria condição. Muitos dizem que no caminho é preciso lutar e decidem fazê-lo, mas uma tal decisão comporta necessariamente uma grave conseqüência a pagar. Se, ao invés, compreenderem o que é a sua vida e o que surge da consciência farão o seu melhor. Não se está dizendo que aqueles que não têm a idéia de lutar fazem um belo nada, somente comem e dormem! Pode ser muito mais trabalhoso para quem luta e que por isso se sobrecarregue, e esteja cheio de tensões. A diferença está exatamente nisso: aquele que luta está carregado de tensões, já aquele que compreendeu qual é a sua verdadeira condição, não tem tensões e não tem nem um pouco essa idéia de lutar; o que quer que seja que deva fazer, alcança o seu objetivo por meio do relaxamento e da compreensão.

Quando tivermos que fazer alguma coisa, busquemos nos observar um pouquinho. Se, por exemplo, um dia quisermos escrever uma bela carta a um amigo ou a uma amiga, pensando talvez em escrevê-la bem, com uma bela grafia uma carta belíssima, e naquele momento tudo vai bem, estamos relaxados, de bom humor, há um pouco de clareza, então, claro que escreveremos uma carta belíssima. Se, ao invés, estivermos um pouco nervosos, tensos, se há algo que exerce uma forte pressão interior, ou algo que incita como que a uma luta, não conseguiremos dizer aquilo que gostaríamos, talvez uma boa palavra e, em vez disso, nos escapará alguma um pouco cruel. Acontece até da caneta não funcionar bem, ou, que a carta pronta, um pouco de tinta a manche. É verdade, sempre acontece assim! E porque acontece tudo isso? Não tanto por defeito da carta ou da caneta, mas principalmente por causa da nossa tensão.

Vamos dar um outro exemplo: um estudante deve fazer um exame, se sobrecarrega antes da prova, e justamente por isso, não consegue fazê-la como deveria; se ao contrário estivesse relaxado, tudo andaria bem. Tudo na vida funciona um pouco assim. Eis, portanto, qual é o ponto fundamental. Não é tanto lutar, mas principalmente compreender qual é a nossa condição e relaxar.

Nossa tensão deve-se principalmente à nossa visão das coisas, ao fato de que as consideramos muito importantes. Portanto, será útil para diminuir tal tensão, afastar-se um pouco, e ver tudo durante o curso do dia como se acontecesse em um sonho.

É uma prática para a qual não se necessita nenhum objeto particular de meditação, nem a recitação de um mantra, nem qualquer posição estabelecida: basta simplesmente usar o pensamento de modo diverso, pensar que se está sonhando.

Levantando de manhã e lembrando da prática, se poderia pensar: - “Sim, estou sonhando que me levanto”; é melhor começar o dia assim. Depois: - “Estou sonhando que estou indo ao banheiro, tomando o café, indo ao escritório; estou sonhando que estou falando com Caio”.

Não é o caso de sairmos contando (aos outros), porque se poderia ser preso como louco. Não é nem mesmo fácil lembrarmo-nos sempre, certamente acontecerá de nos distrairmos; o importante, no entanto, finda a distração, é tornar a pensar que se está sonhando. É uma prática que pode ser feita ao recordar-se dela, mesmo sem preestabelecer um dia para fazê-la.

Dado que, como dissemos, a tensão surge principalmente por causa da excessiva importância atribuída a todas as coisas, treinando-se de tal modo, poderemos acalmar as tensões, relaxar. Esta prática, ainda que simplíssima, traz muito benefício: se feita por um par de dias demonstrará toda a sua eficácia. Sobretudo para um praticante do Dzogchen será de grande ajuda; não digo que lhe permitirá realizar-se, manifestando o Corpo de Luz, mas certamente o ajudará na prática, facilitando a integração da contemplação na vida, na própria condição, até o ponto em que não existam mais tensões.

Este é o princípio e escopo da prática que se encontra entre os métodos mais importantes do Dzogchen. Ela pode ser aplicada sempre e a qualquer momento: comendo, sentando, caminhando; qualquer que seja a atividade que se está fazendo, é necessário procurar estarmos presentes.

Estarmos presentes significa não estarmos distraídos, porque em geral estamos sempre distraídos. Há dois tipos de condições relativas às distrações: uma em que a distração é reconhecida como tal e uma outra em que a distração não é reconhecida.

A condição na qual a distração é reconhecida é, por exemplo, aquela em que ocorre um acidente enquanto estamos fazendo alguma coisa: estamos cortando uma carne e, ao invés de cortá-la, cortamos o dedo; à pergunta de como isso pôde acontecer respondemos: “Estava distraído!” Outra é a condição da distração não reconhecida, devida ao funcionamento da mente: há a mente com seu curso de imagens, de julgamentos e nós que a temos à frente; há o funcionamento de nossos sentidos, as percepções dos objetos que nascem do contato com eles penetrando a mente e, de repente, ela entra no julgamento, por exemplo, sobre a beleza ou feiúra de um objeto; com a idéia do belo surge a do prazer e assim, de distração em distração, a de possuir.

Pronto, este é um exemplo de distração. De fato, estamos sempre distraídos, mesmo durante o nosso raciocinar normal; somente quando se tem a capacidade de se colocar em estado de contemplação, nela integrando os pensamentos, não haverá distrações.

No Dzogchen, tal estado se chama rang grol, que significa autoliberação; o exemplo que se dá freqüentemente é o de uma serpente que desata os nós de seu corpo: pode parecer difícil de fazer para quem a vê toda enrolada como uma corda cheia de nós, mas ela não tem dificuldade de se desenrolar sozinha.

Portanto, no estado de presença da contemplação, ainda que fazendo raciocínios complicados, ainda que no julgamento, se é livre, não condicionado, como um pássaro, se diz, que voa no céu. Um pássaro que voa no céu não deixa traços atrás de si; pode-se dizer que passou por ali, mas por certo não porque tenha deixado traços atrás de si.

Assim, aquele que estiver no estado de autoliberação não é que não tenha pensamentos, prazeres, etc., mas nada o condiciona. Isto é o que se chama de autoliberação.

Soltando nossas tensões e procurando estarmos mais presentes, em geral poderemos desenvolver este conhecimento. Então, estar presentes, não nos distrairmos, quer dizer manter a intenção da presença. A presença pode ser mantida em todos os momentos na vida cotidiana, comendo, trabalhando, e sempre acontece de se perceber que, se não há tensões a soltar, a própria intenção da presença pode gerar tensões.

Alguém pode pensar: “Não quero me distrair, quero estar atento”; repetindo este imperativo de momento a momento, cria-se assim tensão. Por outro lado, a presença serve ao desenvolvimento daquilo que se chama experiência de contemplação.

O estado de contemplação é alguma coisa além da mente, mas a presença, procurar estar presente e não se distrair, pode ser importante para desenvolver a experiência da contemplação e para a integração da contemplação na vida cotidiana

Tradução: Vera de Andrada e Silva
Revisão: Vera de Andrada e Silva

Fonte: Comunidade Dzogchen

Friday, June 01, 2007

Reconhecendo a Natureza da Mente


S.E. Chogye Trichen Rinpoche (1920-2007)

Sob circunstâncias comuns, não é necessário falar da Visão muito diretamente. Então geralmente, em muitos textos e ensinamentos, são dadas explicações indiretas. Quando um mestre oferece uma iniciação a um grupo grande, muitas vezes ele pode dar apenas uma explicação geral, breve, da Visão das quatro iniciações.

Se o significado for explicado claramente, podemos obter um entendimento experiencial da nossa própria consciência (rang-gi rig-pa'i nyam-myong). Sem esta experiência de consciência, nossa prática de vacuidade seria inerte como o espaço físico, sem conhecer nada.

O significado real da sabedoria primordial autoconhecedora (ran-gi rig-pa'i ye-she) não pode ser compreendido intelectualmente. Através do recebimento das bênçãos e das instruções orais (men-ngag) do Guru, que devem ser colocadas em prática, é que seremos capazes de reconhecer a verdadeira natureza da mente. Enquanto os textos escolásticos são úteis para se obter uma idéia geral sobre a verdadeira natureza da mente, a natureza da mente é inexprimível (jö-med, jö-du med-pa). A natureza da mente só pode ser experienciada por si mesmo através da própria prática. O estudo leva à prática de meditação, e a prática leva à experiência genuína do significado da Visão.

Estes ensinamentos pertencem à linhagem da prática (drub-gyü), à linhagem da realização experiencial (thug-dam nyam-zhe-kyi gyü-pa). Isto deve ser assim, pois a verdadeira natureza da mente é livre de todas as elaborações e construções intelectuais (trö-drel). Em outras palavras, ela deve ser experienciada por si mesmo no estado livre de pensamentos (tog-me ngang).

A consciência (rig-pa) só pode ser entendida através do recebimento da instrução do Guru e então da prática de acordo com esta instrução. Se praticarmos bem, bênçãos são recebidas. Através das bênçãos e da aplicação das instruções orais do Guru quanto à verdadeira natureza da mente, somos capazes de reconhecer a consciência (rig-pa) e de sustentar a Visão (ta-wa kyong-wa).

Alguns mestres podem introduzir os discípulos à natureza da mente por uma variedade de meios. Eles podem introduzi-la através dos seus olhares ou através de gestos. Um som elevado como um trovão que assusta a todos pode ser habilmente utilizado por um mestre como uma ocasião para introduzir a natureza da mente. Uma vez que surja o estado livre de pensamentos, o mestre instrui os discípulos a permanecem nesse estado.

Para aqueles que são capazes de permanecer no estado livre de pensamentos, a introdução à consciência pode ser dada. O mestre nos diz que, enquanto a mente é vazia, a consciência autoconhecedora (rang-gi rig-pa) também é capaz de reconhecer a si mesma dentro do estado da vacuidade.

A verdadeira natureza da mente é difícil de se expressar em palavras ou de verdadeiramente se ilustrar através de exemplos. Isto é assim porque ela é muito sutil. Entretanto, por necessidade, a natureza da mente é muitas vezes introduzida simbolicamente. Há muitos exemplos usados nos ensinamentos, mas estes são apenas indicações para apontar o que deve ser reconhecido.

Por exemplo, é dito que a consciência (rig-pa) é como um vajra ou diamante, significando que ela tem o poder de cortar qualquer coisa. A consciência pode cortar através dos pensamentos, assim como um diamante pode cortar qualquer coisa, porém não pode ser quebrado por nada. Do mesmo modo, a consciência não pode ser quebrada, ferida ou perturbada pelos pensamentos.

Um outro exemplo é que a natureza da mente é dita como sendo semelhante ao meio do espaço. Enquanto ela é como o espaço vazio, ela não é uma vacuidade inerte, sem conhecimento. A verdadeira natureza da mente possui o aspecto da claridade (sal-cha), então há a qualidade do conhecimento vazio (sal-tong), diferente do espaço físico que não conhece nada. Diz-se que a consciência é como o meio do espaço porque ela não pode ser apontada. Quando você tenta apontar a natureza da mente, ela desaparece; ela não pode ser localizada em nenhum lugar. Para realizar isto, esforce-se na prática de procurar a mente, de tentar descobrir se há algum lugar de onde a mente ou o pensamento surja, onde permaneça e aonde vá ou deixe de ser.

Também se diz que a natureza verdadeira da mente é como um eco no espaço. Apesar de não poder ser localizada, ela pode ser reconhecida. O exemplo do espaço (nam-kha) é um dos melhores para introduzir o dharmata, a verdadeira natureza dos fenômenos. Primeiro, nosso reconhecimento não será vasto como o espaço. Isto é algo que acontece naturalmente enquanto aprendemos a deixar o apego e fixação (dzin-ba) que amarram e estreitam nossa experiência da Visão.

Para apontar a natureza da mente, eu gosto especialmente de usar estas palavras curtas de Sakya Pandita: "No meio de dois pensamentos, uma continuidade inquebrantável de luminosidade clara."

Quando o último pensamento passou, mas o próximo pensamento ainda não surgiu, há um intervalo, um estado livre de pensamentos (tog-me ngang). Apesar de este estado ser livre de pensamento, ele não é um estado branco, sem conhecimento. Há um aspecto de conhecimento (sal-cha) que experiencia tudo. Quando isto é reconhecido no estado livre de pensamentos, ele é na realidade uma continuidade contínua de luminosidade clara (ö-sal gyün-mi che-pa).

Uma vez reconhecida, esta continuidade de luminosidade clara é rapidamente perdida por nós, apesar de sempre permanecer. Ela é perdida, pois novamente caímos do estado livre de pensamentos e nos tornamos envolvidos com o pensamento. Então, devemos aplicar o significado das palavras de Sakya Pandita, de novo e de novo. Retornamos ao estado entre dois pensamentos, reconhecendo a essência vazia de nossa mente. Este estado livre de pensamentos deve ser penetrado sem qualquer apego ou agarramento à experiência de vacuidade.

A qualidade do conhecimento vazio sem apego (sal-tong dzin-med), que permanece dentro do estado livre de pensamentos, precisa apenas ser reconhecida. Agora, devemos permanecer neste reconhecimento e não permitir que sejamos distraídos pelos pensamentos. Quando nos tornamos distraídos, novamente aplicamos o significado das palavras de Sakya Pandita. Para qualquer pensamento ou sentimento que surja, novamente olhe para a sua mente e reconheça a vacuidade. O pensamento desaparece no reconhecimento da vacuidade.

Este é um ponto chave da continuidade na prática. É assim que podemos aprender a reconhecer e começar a praticar a sustentação da Visão (ta-wa kyong-wa). Este é o significado da prática da Visão de acordo com a tradição Sakya. Também é o significado da Grande Perfeição (dzog-pa chen-po, dzog-chen) e do Grande Selo (mahamudra, chag-gya chen-po).

A prática de sustentação da Visão requer um tipo especial de diligência. No início, nosso reconhecimento da vacuidade não dura muito porque somos rapidamente distraídos e nos tornamos envolvidos com o pensamento dualista (nam-tog). Se não percebermos isto, não retornaremos à Visão. Então, precisamos de uma presença atenta (dren-she). Sem este tipo especial de diligência, a Visão não será sustentada.

A presença atenta é uma combinação de atenção e vigilância. Atenção (dren-pa) significa lembrar-se da essência de sua mente (rang-gi sem ngo-wo), que é a vacuidade (tong-pa-nyid). Em adição à lembrança de reconhecer a vacuidade, o aspecto de claridade (sal-cha) de nossa mente também continua a funcionar pelo conhecimento do que está acontecendo ao nosso redor e dentro de nossa mente.

Como uma função de nossa claridade, a vigilância (she-zhin) percebe o que está acontecendo e também percebe quando estamos distraídos (nam-par yeng-wa) ou quando nos envolvemos em pensamentos (nam-tog). Então, uma vez que tenhamos percebido que perdemos a atenção à essência, mais uma vez a atenção (dren-pa) nos retorna à essência de nossa mente.

Agora podemos entender o significado da qualidade da presença atenta (dren-she) necessária para sustentar a Visão. É o ponto chave de ser diligente em nossa prática de sustentar a continuidade da Visão (ta-wa gyün-kyong).

Retornar ao intervalo entre dois pensamentos, a essência vazia de nossa mente (sem-gyi ngo-wo tong-pa), é o aspecto da permanência calma (shamatha, shi-ne). Reconhecer a luminosidade clara, que tem a qualidade de ser livre de pensamentos, conhecimento vazio sem apego (sal-tong dzin-me), é o aspecto da visão clara (vipashyana, lhag-tong).

Fonte: http://sakyabrasil.org/ensinamentos/chogye3.htm